E-mail para o professor

Oi, professor! Tudo bem?

Desculpa a demora a te responder, a verdade é que tirei esses dias para pensar sobre a proposta de eu iniciar uma I.C. voluntária para estudar o impacto do Antropoceno na estética. A questão é que o projeto de extensão que faço parte está tomando bastante do meu tempo, e alguns convites nos surgiram nesse meio tempo, e eu entendi que não vou ter tempo para me dedicar a IC nesses próximos dois semestres, pelo menos. Esse projeto de extensão deu uma alterada pro meu percurso acadêmico. Então te escrevo esse e-mail para te agradecer por ter topado a ideia da iniciação científica voluntária e para te pedir desculpas por esses vai e vens. De qualquer maneira, recalculei a rota aqui e fiquei pensando que poderia dedicar o meu TCC para isso, já que eu continuo lendo algumas coisas sobre isso, mas de uma maneira tímida. E eu ficaria muito feliz se tu topasse entrar nessa comigo.

Na verdade, prof, é que me falta vigor pra fazer tudo isso. Eu realmente quero me debruçar sobre esse assunto, mas me falta vigor. Acho que deve ter a ver com a minha trombofilia, com a minha depressão e a minha constância atrapalhada com o Zoloft, ou com o Roacutan que eu tomo. Talvez tenha mais a ver com as inúmeras vezes que fico doente por mês, e a maneira como isso drena toda minha energia para a manutenção das coisas básicas para a existência humana (comer, beber água e dormir). Na verdade, sobre isso, entendi que é nesses momentos que eu me sinto mais perto da condição inicial da vida, quando a gente fica submerso em líquido amniótico, envolto em um véuzinho que se chama saco gestacional, sendo alimentados por um tubo que vai direto no nosso umbigo. Ficando doente eu consigo simular isso timidamente. Deixo as janelas fechadas durante os 3 primeiros dias que fico doente, me alimento com o que consigo fazer sozinha e com Ifood, tenho grande contato com coisas aquosas (tomo muitos banhos para baixar a febre), não falo com ninguém, me permito dormir o dia todo e a minha coberta fica com cheiro de suor de doente. Porém, sempre tem aquele momento que preciso sair de casa para caminhar duas quadras até a farmácia para comprar paracetamol e sair desse saco gestacional frankstein. Mas aí eu fico doente, levo mais uma somatização pra minha análise, entendo que tudo isso é isso aí, que no fim eu busco um certo estado de inanição e daí que vem o meu flerte com a morte. E é depois dessa sessão que eu fico bem, aliviada, e é aí que o mundo fora da barriga da minha mãe se apresenta mais gentil pra mim. E aí eu volto a querer sair por aí, estudar as minhas coisas, ver os meus amigos, beber em qualquer bar, fumar o meu prensado. Entende como esse movimento é cansativo? Não sobra tempo e energia para pensar no papel da estética durante a crise climática. A verdade é que eu sei que, por eu nunca ter aguentado muito na vida, qualquer coisa pesa toneladas.

Mas o objetivo desse e-mail não é virar em um relato sobre como a análise salvou a minha vida inúmeras vezes. Não é um e-mail pró-terapia ou, muito menos, motivacional. A verdade é que eu estava limpando a minha casa depois de fumar um beck e fui tirar o pó da minha escrivaninha. Aí eu vi o livro A ideologia da Estética do Eagleton, que tu havia me recomendado para me introduzir nas discussões filosóficas sobre a estética, e relembrei que precisava te escrever esse e-mail. Depois disso, tirei o pó do livro Devoção da Patti Smith que a minha amiga Ana me emprestou, e aí comecei a pensar nela e em nossa relação. A verdade é que, além da terapia, a minha amizade com ela também me salvou. Mas isso aqui não é um e-mail para eu te mostrar o meu amor pela Ana, que, na verdade, tu já deve ter percebido durante a cadeira que fizemos contigo dois semestres atrás.

Depois, lembrei da minha falta de vigor (de novo) e de que preciso ir na portaria do prédio buscar o meu remédio da trombofilia que chegou hoje. A minha psiquiatra disse que um dos motivos da minha falta de energia deve vir da baixa dose de metilfolato no meu corpo. Aí pensei que devo ir logo, pois já são 21:19, mas tô com preguiça de por roupa, passei o dia inteiro pelada hoje. Pensei que eu poderia colocar meu roupão, que é fácil de colocar e de tirar, e descer oito andares até a portaria. Mas aí lembrei que o porteiro dessa noite é o Márcio, e que eu ir apenas com um roupão buscar meu remédio seria estar pedindo demais. Apesar de eu já ter podado bastante as nossas interações, e de achar que agora ele minimamente me respeita (?), vai que hoje algo aconteça. Vai que hoje ele esteja sob efeito de cocaína, como escuto que ele faz, para suportar o turno noturno na portaria. Vou depois. Aí voltei para ti e para esse e-mail, porque me lembrei que tu também assedia mulheres, alunas mais especificamente. Tu e o Márcio tem tanto em comum, só que tu está envolto em um véuzinho acadêmico, protegido com as tuas palavras difíceis e de citações de teóricos mortos alemães. Lembrei disso e entendi que te enviar esse e-mail completo seria te dar a impressão de muita intimidade. Flerto com essa ideia de te enviar o e-mail inteiro, e não apenas o primeiro parágrafo, porque li bastante do livro Eu amo Dick da Chris Krauss hoje, e ela tem a coragem de mostrar pro acadêmico pretencioso do Dick todas as cartas bizarras que ela escreveu pra ele. Mas eu seria só esse e-mail mesmo, não seja um homem pretensioso ao achar que te escrevo inúmeros e-mails não enviados. Não penso em ti como meu interlocutor. Esse é o primeiro e o último. Será que eu te peço mesmo para ser meu orientador no TCC? Preciso parar de te escrever e ir na portaria buscar meu remédio pra resolver isso logo, já tá ficando tarde.

Ah, a verdade é que eu também quero ter mais tempo pra ouvir Kanye West chapada e ter noites livres durante a semana para transar.


Atenciosamente,
Pêssego em calda.

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