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Guerra

Eu queria levar um murro muito forte na cara. Queria que alguém me espancasse. Que tudo ficasse roxo e que saísse sangue muito sangue. Que essa surra servisse pra me purificar como achavam que faziam as sanguessugas na idade média. Mas sanguessugas são muito passivas e bondosas, eu queria um soco no olho direito e um pontapé no estômago. Ou pode ser lutar em uma guerra. Na Guerra do Paraguai. Na batalha de Waterloo. Na Revolução Farroupilha. O que me convidassem eu tava indo. Eu iria sem nem pensar duas vezes. Iria fundo. E seria o soldado mais preparado, lutaria até morrer. Eu queria ser o fede-fede que morreu no canto da minha cozinha. Que ficou secando por dias, e que eu esmaguei com o aspirador de pó pra conseguir limpar o chão. E quando eu esmaguei ele fedeu, como seu nome acusava que federia. Queria ser aqueles pedacinhos de inseto seco espalhados pelo chão da cozinha depois de levar um tapa do aspirador de pó. Eu já fumei cigarro. Já limpei a casa. Já limpei o espelho do banheir...

Frio de julho

     Estar com alguém é algo relativamente complexo. Acho que deveria ser algo fácil, ou que , talvez, com a pessoa deveria ser. Mas pra mim nunca foi e entendo que nunca vai ser. Acho que fica fácil quando se é um animal sem o domínio da linguagem, quanto mais palavras e mais frases se sabe, mais difícil fica a coisa toda. E eu estudo Letras. Não que seja algo digno de se gabar, não falo isso com pompa. É justamente o contrário, por eu estar tão amalgamada com as palavras e as letras eu sinto cada vez mais forte que, genuinamente, eu deveria ficar bem longe delas. Fugir do mundo simbólico, jogar fora o ato falho, queimar todos os livros, esquecer de pensar com códigos e de ler qualquer letra miúda em qualquer rótulo dispensável.      Era a segunda vez que eu ficava doente em menos de um mês, primeira, em muito tempo, que não era somatização de um incômodo vindo pelas palavras. Felizmente não tive febre, só meu nariz que escorria sempre que olhava pra baixo...

E-mail para o professor

Oi, professor! Tudo bem? Desculpa a demora a te responder, a verdade é que tirei esses dias para pensar sobre a proposta de eu iniciar uma I.C. voluntária para estudar o impacto do Antropoceno na estética. A questão é que o projeto de extensão que faço parte está tomando bastante do meu tempo, e alguns convites nos surgiram nesse meio tempo, e eu entendi que não vou ter tempo para me dedicar a IC nesses próximos dois semestres, pelo menos. Esse projeto de extensão deu uma alterada pro meu percurso acadêmico. Então te escrevo esse e-mail para te agradecer por ter topado a ideia da iniciação científica voluntária e para te pedir desculpas por esses vai e vens. De qualquer maneira, recalculei a rota aqui e fiquei pensando que poderia dedicar o meu TCC para isso, já que eu continuo lendo algumas coisas sobre isso, mas de uma maneira tímida. E eu ficaria muito feliz se tu topasse entrar nessa comigo. Na verdade, prof, é que me falta vigor pra fazer tudo isso. Eu realmente quero me debruçar ...

Matheus

Matheus, hoje eu desejei muito que tu pegasse o mesmo ônibus que eu. Desejei muito que houvesse uma alteração súbita na rota do 343 e que ele passasse na frente da tua casa e do lado do teu trabalho. E que todos os empecilhos súbitos que não fariam tu pegar o mesmo ônibus que eu, às 18:07, não acontecessem, só para eu te ver passando pela catraca. Ou, que todos os empecilhos te pegassem desavisado e tu tivesse que pegar exatamente o ônibus que eu. Eu poderia até guardar o lugar do meu lado, mesmo que eu recebesse um olhar feio de uma senhora que precisaria muito sentar. Eu faria isso por ti.  Fico olhando pro sol se por no horizonte, seus laços dourados se espalham na água do Arroio Dilúvio. Seria muito bonito se eu te visse agora dentro desse ônibus cheio. Pena que a água do Arroio Dilúvio é muito suja e cheira muito mal. Seu tom esverdeado altera a cor do dourado bonito. Seria muito bonito se tu já estivesse dentro do ônibus por um tempo, e eu só não tinha te encontrado ainda. Co...