Frio de julho
Estar com alguém é algo relativamente complexo. Acho que deveria ser algo fácil, ou que , talvez, com a pessoa deveria ser. Mas pra mim nunca foi e entendo que nunca vai ser. Acho que fica fácil quando se é um animal sem o domínio da linguagem, quanto mais palavras e mais frases se sabe, mais difícil fica a coisa toda. E eu estudo Letras. Não que seja algo digno de se gabar, não falo isso com pompa. É justamente o contrário, por eu estar tão amalgamada com as palavras e as letras eu sinto cada vez mais forte que, genuinamente, eu deveria ficar bem longe delas. Fugir do mundo simbólico, jogar fora o ato falho, queimar todos os livros, esquecer de pensar com códigos e de ler qualquer letra miúda em qualquer rótulo dispensável.
Era a segunda vez que eu ficava doente em menos de um mês, primeira, em muito tempo, que não era somatização de um incômodo vindo pelas palavras. Felizmente não tive febre, só meu nariz que escorria sempre que olhava pra baixo, o que felizmente me distanciou um pouco das leituras e das escritas. Também tinha os espirros, um atrás do outro, três seguidos, a cada meia hora praticamente. Felizmente eu tinha dor de cabeça, o movimento que eu fazia com a cabeça quando espirrava chicoteava meu cérebro de dentro pra fora. Seis chicoteadas por hora. Felizmente não conseguia ler nem escrever, nem aquilo que eu queria e muito menos aquilo que eu deveria.
Era início de julho, fazia muito frio e o sol permanecia escondido por uma coberta de nuvens brancas e espessas fazia quase uma semana. O vento gelado se enfiava nos ossos mesmo com uma camada de roupa térmica e outra e outra de roupas normais. Ficar doente não destoava da palidez desse cenário. A gente estava afofados na minha casa, eu e o Matheus. Como falei antes, eu estava doente e impossibilitada de fazer qualquer coisa que julgava produtiva. Decidimos abrir o sofá da sala e nos jogar nas almofadas com uma coberta de plush velha. O pequeno aquecedor, que ficava o dia inteiro ligado, agora estava direcionado aos nossos pés gelados. Era apenas duas horas da tarde e eu já estava me sentindo imensamente entediada, propus um jogo. Vamos jogar quem sou eu? Primeira rodada, eu escrevo no papel Crazy Frog e colo na testa do Matheus com a minha baba. Ele cola um papel na minha. Eu estava consideravelmente animada, nunca tinha jogado nenhum jogo com ele. Só com perguntas de sim ou não ele acerta logo a resposta e eu fico presa com o Luan do Grêmio na minha testa. Começo a ficar irritada, nunca ouvi falar desse cara.Ok, vamos para a segunda rodada. Corto novos papéis e escrevo Peso Pluma no papel, sigo o mesmo procedimento de antes: encho o papel de baba e colo na testa dele, ele faz o mesmo comigo. Se eu acertar quem eu sou antes de ti, vou pegar uma bola tua só pra mim. Rimos. Começamos o jogo. As perguntas que eu fazia pareciam me aproximar e me afastar da resposta, eu estava ficando irritada de novo. Ha! Osama Bin Laden! Tinha acertado a resposta antes dele. Bom, Matheus, tu me prometeu uma bola tua se eu ganhasse de ti. Rimos de novo. Ele concordou com um sim tímido e riu. Dei um beijo nele, me ajoelhei e comecei a abrir sua calça. Não precisa ficar nervoso, meu bem. Tirei sua cueca azul e decidi pela bola esquerda. Eu vou fazer de um jeito que vai doer o mínimo possível, fica tranquilo. Peço pra ele sentar no meu sofá enquanto coloco uma toalha embaixo dele. Eu sei direitinho como fazer isso, faz tempo que estudo o jeito certo. Ele concordou com a cabeça e deu um leve sorriso, como que incentivando que eu continuasse.
Do lado do meu sofá, tinha um bidê antigo de madeira escura da minha falecida vó, ali eu guardava de tudo um pouco. Tinha uma gavetinha com um puxador de madeira que guardava cabos da TV, carregadores, pregos para a janela emperrada da sala, meu dichavador e um estilete rosa só para ocasiões especiais. Alcanço ele com a minha mão e confiro o fio: extremamente afiado. A navalha eu havia preparado havia algumas noites, tinha passado horas passando sua lâmina na chaira que tinha ganhado do meu pai. Eu raspava o estilete até parar de ouvir o som ruidoso de uma lâmina cega, afiei até ela reluzir a luz amarela do meu abajur. Segurei o rosa e subi o reluzente. Ele viu a lâmina afiada e desarqueou as sobrancelhas, confiou no estilete rosa. Direcionei o aquecedor pra entre suas pernas.
Eu estava me deparando exatamente com aquilo que eu havia estudado: o pênis (encolhido por causa do frio, e não pelo medo) e o saco escrotal. Segurei o meu testículo esquerdo e sorri para o Matheus, ele olhou pra mim com ternura. Iniciei o corte com delicadeza, exatamente ao lado do septo-escrotal. Gotinhas de sangue vermelho começaram a sair pra fora e cair na toalha, exatamente como eu tinha planejado. Senti com as minhas mãos o canal deferente e os vasos sanguíneos, essas coisas eu não queria, iriam ficar com ele. Deitei o estilete e comecei a separar a pele do testículo, como eu havia treinado na semana passada no pedaço de músculo bovino que fiz carne de panela com vinho tanat e tomates italianos. A precisão tinha que ser extrema, não queria machucar a esfera leitosa que já era minha. O corte tinha que ser arredondado, meu movimento era circular. Apertei o saco escrotal e ele começou a vir em minha direção, nascia pra mim. A imagem lembrou a da cabeça de um bebê esbranquiçada, envolta pelo saco amniótico. A lâmina deslizava quase que sozinha entre a pele e o sangue. A minha mão direita seguia uma coreografia já ensaiada, a minha esquerda segurava o resto todo, para dar estabilidade. Eu sorria. Abracei a bola leitosa com as minhas duas mãos. Estava feito. O sangue desperdiçado era mínimo.
No bolso direito do meu abrigo tinha uma agulha e uma linha vermelha escura. Esterilizei a agulha com o isqueiro, passei o vermelho pela casa. O nó eu fiz exatamente como a minha mãe havia me ensinado quando eu era criança, o treinamento já havia começado quando eu era pequena. Enrolei o final da linha entre o meu dedão e meu indicador, passei ela entre esses dedos e fiz com meus dedos o mesmo movimento que as moscas fazem quando limpam as mãos. O nó estava feito. Essa parte era a mais fácil, poderia fazer de olhos fechados. Dei os pontos, vermelinhos como o sangue que ainda estava coagulando. Cuidadosamente, coloquei o testículo esquerdo num pote de pepinos em conserva que eu havia esterilizado com água quente.
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