Guerra

Eu queria levar um murro muito forte na cara. Queria que alguém me espancasse. Que tudo ficasse roxo e que saísse sangue muito sangue. Que essa surra servisse pra me purificar como achavam que faziam as sanguessugas na idade média. Mas sanguessugas são muito passivas e bondosas, eu queria um soco no olho direito e um pontapé no estômago. Ou pode ser lutar em uma guerra. Na Guerra do Paraguai. Na batalha de Waterloo. Na Revolução Farroupilha. O que me convidassem eu tava indo. Eu iria sem nem pensar duas vezes. Iria fundo. E seria o soldado mais preparado, lutaria até morrer. Eu queria ser o fede-fede que morreu no canto da minha cozinha. Que ficou secando por dias, e que eu esmaguei com o aspirador de pó pra conseguir limpar o chão. E quando eu esmaguei ele fedeu, como seu nome acusava que federia. Queria ser aqueles pedacinhos de inseto seco espalhados pelo chão da cozinha depois de levar um tapa do aspirador de pó. Eu já fumei cigarro. Já limpei a casa. Já limpei o espelho do banheiro que tava muito sujo de respingos do meu nariz ranhento. Quão ridículo é exteriorizar essa vontade nessas coisas ridículas. Eu queria jogar a panela cheia de caldo de legumes no chão. Queria que ela estourasse por tudo. Alho poró, tomate, cebola, a água, que isso se espalhasse por tudo e fizesse a maior bagunça. Eu queria ter uma queimadura de terceiro grau com o caldo de legumes. “Nossa, que horror!”. Não mesmo. Seria o maior ato de bondade que eu teria comigo mesmo. Imagina quebrar esse computador que eu escrevo isso agora: virar a tela dele até ouvir um ckrek. Eu queria ser esse computador e ser partido no meio. Se eu fosse transar agora, queria que fosse a transa mais violenta que eu já fiz. Queria sentir dor, muita dor. E muito, muito prazer. Queria ouvir a música mais barulhenta do mundo. Queria ser o DrumnBass mais esquizofrênico do mundo. Queria que meus ouvidos ficassem doendo e que eu sentisse como se penetrasse meu tímpano como uma agulha de crochê. Tudo isso me faria tão bem. Eu fiz um desenho de giz pastel e esmaguei todas as cores: preto, marrom, amarelo, verde, azul, branco. Depois queimei a folha na sacada e fiquei assistindo o fogo colorido. Algo nunca foi tão brochante como isso. O fogo tava destruindo tudo, não eu. Foi o fogo que infetou a casa inteira com um cheiro de plástico queimado, e não eu. Fiquei com inveja do fogo. E se eu me botasse fogo. Se eu me incendiasse bem direitinho. Pena que eu não tenho álcool 70 o suficiente. Pensei em aproximar o papel pegando fogo perto da minha barriga nua. Será que sentir uma queimadura me faria bem? Ah, mas eu sou covarde. Na verdade eu não faria nada disso. O máximo que eu faço é escrever esse texto de merda em um computador ridículo. E fumar mais um cigarro. Mais um cigarro. Mais um e porra nenhuma muda. Porra nenhuma muda tudo. Tudo muda porrinha nenhuminha. Eu daria uma surra em alguém. Uma surra muito bem dada. E se eu pudesse me surrar, nossa, entraria em um êxtase muito profundo. Imagina sentir o meu punho acertando meu estômago, seguido de uma dor absurda no meu duodeno. Queria estraçalhar meu íleo, meu cólon, o reto, meu apêndice. Espalhar minhas pedras do rim (tomara que eu tenha pedra no rim), em cima do meu próprio rosto. Decorar meu rosto com essas pedrinhas verdes fétidas. Imagina a cena de horror. Eu entraria no mais profundo gozo. Eu amaria muito. Eu me amaria muito, assim, toda estraçalhada.

Comentários